{"id":1642,"date":"2016-08-04T09:23:32","date_gmt":"2016-08-04T12:23:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.niip.com.br\/?p=1642"},"modified":"2016-08-04T09:23:48","modified_gmt":"2016-08-04T12:23:48","slug":"pais-e-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.niip.com.br\/?p=1642","title":{"rendered":"Pais e filhos"},"content":{"rendered":"<p>CONTARDO CALLIGARIS<\/p>\n<p>&#8216;Longe da \u00c1rvore&#8217;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que saber\u00edamos produzir vidas com uma esperan\u00e7a diferente da de reproduzir a n\u00f3s mesmos?<\/p>\n<p>Li o novo livro de Andrew Solomon quando foi publicado nos EUA, no fim de 2012. Para explicar por que ele \u00e9, para mim, um dos ensaios mais importantes das \u00faltimas d\u00e9cadas, preferi esperar a tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, &#8220;Longe da \u00c1rvore &#8220;&#8221; Pais, Filhos e a Busca da Identidade&#8221; (Companhia das Letras).<\/p>\n<p>O t\u00edtulo se refere ao ditado segundo o qual os frutos nunca caem longe da \u00e1rvore que os produziu &#8211;ou seja, &#8220;tais pais, tais filhos&#8221;. S\u00f3 que, \u00e0s vezes, nossos filhos nos parecem diferentes de n\u00f3s: frutos ca\u00eddos longe da \u00e1rvore. De qualquer forma, a \u00e1rvore quase sempre acha que seus frutos ca\u00edram mais longe do que ela gostaria. E, na nossa cultura, amar os filhos que s\u00e3o diferentes de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 nada \u00f3bvio.<\/p>\n<p>A obra de Solomon \u00e9 um extraordin\u00e1rio elogio da diversidade e da possibilidade de amar e respeitar a diferen\u00e7a, mesmo e sobretudo nos nossos filhos. Por acaso, li o livro de Solomon logo depois das tocantes e bonitas mem\u00f3rias de Diogo Mainardi (&#8220;A Queda&#8221;, Record) sobre o amor por seu primog\u00eanito, Tito, diferente por ser portador de paralisia cerebral.<\/p>\n<p>A leitura de &#8220;Longe da \u00c1rvore&#8221; ajudar\u00e1 qualquer pai a n\u00e3o transformar suas expectativas em condi\u00e7\u00f5es de seu amor. Isso bastaria para que a obra de Solomon fosse imprescind\u00edvel &#8211;para pais e para filhos. Mas h\u00e1 mais.<\/p>\n<p>Retomo uma distin\u00e7\u00e3o que Solomon usa. Chamemos de identidades verticais as que s\u00e3o impostas ou transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o: elas s\u00e3o consequ\u00eancia da fam\u00edlia, da tribo, da na\u00e7\u00e3o na qual nascemos e tamb\u00e9m das expectativas dos pais (quando elas moldarem os filhos). Chamemos de identidades horizontais as que inventamos ou \u00e0s quais aderimos junto com nossos pares e coet\u00e2neos: elas s\u00e3o tentativas de definir quem somos por nossa conta, sem nada dever \u00e0 \u00e1rvore da qual ca\u00edmos.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 o seguinte: a ideia crucial da modernidade \u00e9 que as identidades verticais n\u00e3o constituem mais nosso destino (por exemplo, o fato de nascer nobre ou campon\u00eas n\u00e3o decide o lugar que o indiv\u00edduo ocupar\u00e1 na sociedade).<\/p>\n<p>Os filhos, portanto, conhecem uma liberdade sem precedentes (viajam, mudam de pa\u00eds, de status, de profiss\u00e3o etc.), atr\u00e1s do sonho moderno de &#8220;se realizarem&#8221; &#8211;e n\u00e3o do sonho antigo de repetirem seus antepassados. Mas acontece que esse sonho de &#8220;se realizarem&#8221; \u00e9 tamb\u00e9m o dos pais, os quais, como qualquer um, s\u00f3 &#8220;aconteceram&#8221; pela metade (quando muito). Consequ\u00eancia e conflito: os filhos deveriam correr livres atr\u00e1s de seus pr\u00f3prios sonhos, enquanto os pais esperam e pedem que os filhos vivam para contrabalan\u00e7ar as frustra\u00e7\u00f5es da vida de seus genitores.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que um dia seremos capazes de um amor n\u00e3o narcisista pelos nossos filhos? Ser\u00e1 que seremos capazes de querer produzir vidas por uma raz\u00e3o diferente da de reproduzir a n\u00f3s mesmos?<\/p>\n<p>Se isso acontecer um dia, ser\u00e1 poss\u00edvel dizer que &#8220;Longe da \u00c1rvore&#8221; foi o primeiro indicador de uma mudan\u00e7a que transformou nossa cultura para sempre.<\/p>\n<p>Alguns poderiam se assustar diante do tamanho da obra de Solomon, que \u00e9 monumental (mais de 800 p\u00e1ginas). Reassegurem-se: a leitura \u00e9 fascinante.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 constru\u00eddo assim: h\u00e1 uma introdu\u00e7\u00e3o, &#8220;Filho&#8221;, imperd\u00edvel, e uma conclus\u00e3o, &#8220;Pai&#8221; (de filho para pai \u00e9 o caminho que o pr\u00f3prio Solomon percorreu na sua vida).<\/p>\n<p>No meio, h\u00e1 dez cap\u00edtulos (que n\u00e3o precisam ser lidos na ordem) sobre as &#8220;diferen\u00e7as&#8221; de filhos que ca\u00edram longe da \u00e1rvore e como os pais lidaram com elas (surdos, an\u00f5es, s\u00edndrome de Down, autismo, esquizofrenia, defici\u00eancia, [crian\u00e7as-]prod\u00edgios, [filhos de] estupro, crime, transg\u00eaneros). A essa lista \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar gay e disl\u00e9xico, que s\u00e3o os tra\u00e7os que fizeram de Solomon um diferente.<\/p>\n<p>Das centenas de entrevistas nas quais ele se baseia, Solomon sai com um certo otimismo sobre a possibilidade de os pais aprenderem a amar filhos diferentes deles.<\/p>\n<p>Entendo seu otimismo assim: as diferen\u00e7as extremas (como as que ele contempla) derrotam o narcisismo dos pais de antem\u00e3o (esses filhos nunca ser\u00e3o uma continua\u00e7\u00e3o trivial de voc\u00eas) e portanto levam \u00e0 possibilidade de amar os filhos como entes separados de n\u00f3s.<\/p>\n<p>No dia a dia corriqueiro da rela\u00e7\u00e3o pai-filho, o narcisismo dos pais e dos adultos produz uma falsa e incur\u00e1vel infantolatria: parecemos adorar as crian\u00e7as, mas mal as enxergamos &#8211;apenas amamos nelas a esperan\u00e7a de que elas realizem nossos entediantes sonhos frustrados.<\/p>\n<div><b><a href=\"mailto:ccalligari@uol.com.br\" target=\"_blank\">ccalligari@uol.com.br<\/a><\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"slide-text-bg2\"><span>CONTARDO CALLIGARIS &#8216;Longe da \u00c1rvore&#8217; Ser\u00e1 que saber\u00edamos produzir vidas com uma esperan\u00e7a diferente da de reproduzir a n\u00f3s mesmos? 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