{"id":1648,"date":"2016-08-04T09:30:29","date_gmt":"2016-08-04T12:30:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.niip.com.br\/?p=1648"},"modified":"2016-08-04T09:30:29","modified_gmt":"2016-08-04T12:30:29","slug":"criancas-transtornadas-ou-mimadas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.niip.com.br\/?p=1648","title":{"rendered":"Crian\u00e7as transtornadas ou mimadas?"},"content":{"rendered":"<p>CONTARDO CALLIGARIS<\/p>\n<p>Crian\u00e7as transtornadas ou mimadas?<\/p>\n<p>Procurar as raz\u00f5es do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o leva tempo, mas prescrever uma p\u00edlula leva um minuto<\/p>\n<p>Nas \u00e1reas urbanas do mundo ocidental, entre 8 e 10% das crian\u00e7as do primeiro ciclo s\u00e3o diagnosticadas com TDA\/H (Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o &#8211;com ou sem Hiperatividade). O que significa, grosso modo, que elas n\u00e3o conseguem focar, s\u00e3o constantemente distra\u00eddas e, quando hiperativas, n\u00e3o param de se movimentar.<\/p>\n<p>Sabe aquelas crian\u00e7as que, na hora de ler ou estudar, s\u00e3o atormentadas por coceiras irresist\u00edveis, rolam de um lado para o outro da cama, batucam, acham que a camiseta est\u00e1 apertada ou que \u00e9 urgente abrir a janela (ou fech\u00e1-la)? Pois \u00e9, essas mesmo.<\/p>\n<p>Elas atrapalham a classe inteira, exasperando pais e professores. E, de fato, o transtorno \u00e9, antes de mais nada, uma queixa dos adultos, os quais, \u00e0s vezes, pedem que m\u00e9dicos, psic\u00f3logos e pedagogos fa\u00e7am &#8220;alguma coisa&#8221; &#8211;pelo amor de Deus.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 os adultos pagam a conta: as crian\u00e7as com d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperativas n\u00e3o aprendem a metade do que aprenderiam se ficassem sentadas e focadas. V\u00e1rias experi\u00eancias mostram que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel combinar pensamento (ou aprendizado) com agita\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ser um pensador (ou um aluno) med\u00edocre.<\/p>\n<p>Alguns dizem que tudo isso acontece porque n\u00e3o sabemos mais disciplinar nossas crian\u00e7as. N\u00e3o queremos correr o risco de contrari\u00e1-las e de perder seu amor e, com isso, somos absurdamente permissivos; logo, insatisfeitos com nossa pr\u00f3pria permissividade, tentamos corrigi-la com erup\u00e7\u00f5es de severidade descabida. Essa altern\u00e2ncia piora a tens\u00e3o e a agita\u00e7\u00e3o f\u00edsica e mental das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Enfim, diante do TDA\/H, tr\u00eas estrat\u00e9gias poss\u00edveis:<\/p>\n<p>1) sugerir mudan\u00e7as no comportamento das crian\u00e7as e dos adultos ao redor delas (h\u00e1 pequenos gestos que fazem uma diferen\u00e7a: organizar o trabalho escolar, acalmar e ordenar o ambiente familiar, desligar a TV durante as refei\u00e7\u00f5es&#8230;);<\/p>\n<p>2) entender os conflitos internos que talvez se expressem na falta de aten\u00e7\u00e3o e na hiperatividade da crian\u00e7a e tentar intervir;<\/p>\n<p>3) medicar (descobriu-se que os melhores rem\u00e9dios n\u00e3o eram calmantes, mas estimulantes como Ritalina ou Dexedrina).<\/p>\n<p>No come\u00e7o dos anos 1990, nos EUA, uma grande (e apressada) pesquisa chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que medicar era o caminho mais eficiente &#8211;certamente, era o mais barato.<\/p>\n<p>Hoje, v\u00e1rios autores daquela pesquisa duvidam de suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. Lamentam, por exemplo, que a gente, apostando nos rem\u00e9dios, tenha deixado de se ocupar do resto, que talvez fosse mais importante a longo prazo (&#8220;New York Times&#8221; de 30\/12\/2013).<\/p>\n<p>Mas o artigo do &#8220;NYT&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma novidade: numa mat\u00e9ria da &#8220;Der Spiegel&#8221; em 2012 (<a href=\"http:\/\/migre.me\/hqR7i\" target=\"_blank\"><b>http:\/\/migre.me\/hqR7i<\/b><\/a>), Leon Eisenberg, um papa da psiquiatria norte-americana, encorajava os psiquiatras a voltar a se interessar pelas &#8220;raz\u00f5es psicossociais&#8221; que levariam a um &#8220;problema de comportamento&#8221;, como o TDA\/H. Infelizmente, ele comentava, o interesse por essas quest\u00f5es leva tempo, enquanto prescrever uma p\u00edlula \u00e9 coisa de um minuto.<\/p>\n<p>Nota aparte: para muitas crian\u00e7as diagnosticadas com TDA\/H, a falta de aten\u00e7\u00e3o depende da atividade na qual elas se engajam. Quase nunca falta a concentra\u00e7\u00e3o exigida por um videogame, como n\u00e3o faltam a aten\u00e7\u00e3o esperada do goleiro ao longo de uma partida ou a paci\u00eancia do surfista que aguarda uma onda, no fundo. Ou seja, o d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma inaptid\u00e3o cerebral.<\/p>\n<p>Mas a pesquisa dos anos 1990, aben\u00e7oando o uso sistem\u00e1tico da medica\u00e7\u00e3o, atrasou o trabalho de todos, terapeutas comportamentais, psicanalistas etc.<\/p>\n<p>Um artigo de 2007 (<a href=\"http:\/\/migre.me\/hqROf\" target=\"_blank\"><b>http:\/\/migre.me\/hqROf<\/b><\/a>) retoma uma tese antiga, que insiste desde os anos 1990, e que fala mais dos efeitos do TDA\/H do que de sua origem: o TDA\/H lutaria contra o sentimento de rejei\u00e7\u00e3o pelos pares, porque pensar \u00e9 uma atividade solit\u00e1ria (com riscos de disc\u00f3rdia), enquanto \u00e9 r\u00e1pido e f\u00e1cil se enturmar ao redor de a\u00e7\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas.<\/p>\n<p>Enfim, resta um c\u00edrculo vicioso cl\u00e1ssico. Tal crian\u00e7a morre de t\u00e9dio assim que abre um livro ou entra num museu; agora, sem cultura para enriquecer a experi\u00eancia, \u00e9 a vida dela inteira que se tornar\u00e1 mortalmente chata &#8211;inclusive a agita\u00e7\u00e3o que deveria garantir a distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aviso: vou tirar umas f\u00e9rias &#8211;jeito de falar: vai ser para focar melhor, n\u00e3o para me distrair (sempre acho bizarro querer se distrair &#8211;de qu\u00ea?). A coluna volta no dia 6 de fevereiro. Bom come\u00e7o de ano a todos.<\/p>\n<div>\n<p>&#8211;<\/p>\n<p><b>COLUNISTAS DA SEMANA<\/b>: sexta:\u00a0<b>Michel Laub<\/b>, s\u00e1bado:\u00a0<b>\u00c1lvaro Pereira J\u00fanior<\/b>, domingo:<b>Ferreira Gullar<\/b>, segunda:\u00a0<b>Luiz Felipe Pond\u00e9<\/b>, ter\u00e7a:\u00a0<b>Jo\u00e3o Pereira Coutin<\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"slide-text-bg2\"><span>CONTARDO CALLIGARIS Crian\u00e7as transtornadas ou mimadas? Procurar as raz\u00f5es do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o leva tempo, mas prescrever uma p\u00edlula leva um minuto <\/span><\/div>\n<div class=\"slide-btn-area-sm\"><a href=\"https:\/\/www.niip.com.br\/?p=1648\" class=\"slide-btn-sm\">Ler mais<\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[80],"tags":[],"class_list":["post-1648","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c24-infancia-e-atualidade"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1648","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1648"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1648\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1649,"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1648\/revisions\/1649"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.niip.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}